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Por Outro Lado

Uma análise crítica do dia-a-dia

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Uma análise crítica do dia-a-dia

Sabe quanto dinheiro precisa para se reformar? Pode ser menos do que pensa

23.03.18 | Manuel Por Um Lado

Reforma

 

A vasta maioria das pessoas provavelmente não tem uma ideia muito concreta da quantidade de dinheiro que necessita para puder deixar de trabalhar e muito menos da idade em que lhe será possível atingir essa quantia.

 

No entanto, é surpreendente perceber que neste contexto de desconfiança crescente em relação à capacidade da segurança social em suprir as necessidades financeiras a longo prazo, a maioria da população não tem um plano concreto para o seu futuro financeiro. Contudo, a quantia de poupanças necessária para a “reforma antecipada” ou para a “independência financeira” é relativamente simples de estimar, dependendo sobretudo das aplicações financeiras escolhidas e das despesas planeadas ter depois de deixar de trabalhar.

 

A taxa de retorno é determinante no crescimento da poupança

Existem vários tipos de aplicações financeiras que podem ser utilizadas para construir uma poupança suficiente para suportar o custo de vida depois de deixar de trabalhar. Todavia, os diversos tipos de aplicações financeiras têm taxas de retorno e risco subjacente muito diferentes. Numa perspetiva de simplificação apresentaremos de seguida os três tipos de aplicações mais comummente utilizadas: depósitos, obrigações e ações.

 

Isto não significa que devam ser os únicos tipos de ativos a considerar na resposta à questão colocada neste artigo. Outros ativos, como por exemplo o imobiliário, devem ser considerados se gerarem retorno de forma regular (através de rendas); caso não gerem receitas, constituirão provavelmente uma despesa, assumindo que não existe interesse na sua venda.

 

Savings

 

Os depósitos bancários são certamente a aplicação mais bem conhecida pela população e aquela que é utilizada virtualmente por todas as pessoas que começam a construir a sua poupança. A principal vantagem dos depósitos é o facto de o risco de perda do capital ser extremamente reduzido. Atualmente, em Portugal, o fundo de garantia de depósitos garante o reembolso de até 100,000€ por titular de conta, em caso de insuficiência financeira por parte da instituição bancária. Por isso, do ponto de vista do risco associado à aplicação, os depósitos são praticamente imbatíveis.

 

Contudo, tão ou mais importante que o risco nesta questão da independência financeira é a taxa de retorno média. Neste ponto, os depósitos são de facto péssimas opções porque tendem a seguir a inflação, não representando ganhos reais para o depositante. Esporadicamente, existem depósitos que apresentam taxas de retorno substancialmente acima da inflação, mas por outro lado existem circunstâncias em que a taxa de retorno fica substancialmente abaixo da inflamação, como acontece atualmente. Por isso, os depósitos dificilmente podem ser vistos como uma ferramenta capaz de suportar a independência financeira a longo prazo. No melhor dos cenários conseguir-se-iam alguns anos de taxa de retorno acima de média no início da “reforma antecipada”, mas nos anos subsequentes deixaria de haver retorno e a totalidade do custo e vida teria de ser suportado a partir do capital poupado.Por isso, surge a necessidade de considerar as obrigações e ações para atingir taxas de retorno que promovam a sustentabilidade a longo prazo do capital poupado durante a vida de trabalho.

 

Obrigações e Ações?

De forma simples, podemos definir as obrigações como um empréstimo da parte do investidor a uma determinada entidade, por exemplo para que esta possa expandir as suas atividades. Já as ações constituem um mecanismo pelo qual as entidades expandem o capital que lhes está disponível através da venda de parte da propriedade da empresa.

 

Quando o investidor compra uma obrigação está definido o valor da taxa de juro bem com a maturidade. Uma vez ultrapassada essa maturidade o investidor é reembolsado do valor “emprestado” mais os juros aplicáveis. No caso das ações não existem taxas de juro nem maturidades definidas, estando o valor da ação dependente da procura e oferta no mercado de capitais. Quanto maior a procura e a confiança dos investidores numa determinada entidade mais tenderá a subir o valor da sua ação. Este processo significa também que as ações são uma aplicação financeira particularmente volátil, sobretudo no curto-prazo.

 

Tendo em conta estas características, as obrigações são geralmente vistas como o produto mais conversador e com menor risco, pois não dependem de variações momentâneas da bolsa de valores e estão menos sujeitas aos impactos das crises financeiras que tendem a acontecer de forma cíclica. Estas diferenças em termos de risco refletem-se também no retorno médio que tende a ser inferior ao retorno obtido com investimentos em ações.Considerando as características dos depósitos, obrigações e ações verifica-se um padrão claro: maior retorno implica maior risco.

 

Esta relação não é nada de novo para a maioria das pessoas, mas a aversão à perda que caracteriza o ser humano, juntamente com a má imprensa que os mercados financeiros têm nos media tradicionais, faz com que a maioria das pessoas tenha receio em optar por uma estratégia de investimento nos mercados financeiros. No entanto, o modo de aplicação das poupanças pode ser um fator determinante para o sucesso ou insucesso do objetivo de atingir a independência financeira.

 

Como estabelecemos acima, os depósitos bancários tendem a ter uma taxa de retorno residual que em muitos dos casos não atinge sequer o nível da inflamação, e por isso na prática resulta em perdas reais para os investidores. Já as obrigações e ações tendem a apresentar desempenhos muito superiores a longo prazo (as flutuações diárias do valor das ações não são relevantes, pois o importante é valor médio atingido). Ao longo das últimas décadas estas aplicações têm apresentado taxas de retorno relativamente constantes em termos médios, isto é, independente da ocorrência de crises cíclicas o retorno médio tem sido sempre bastante positivo.

 

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A título de exemplo utilizaremos os retornos médios da bolsa de valores dos Estados Unidos, por ser a mais desenvolvida a nível mundial, tanto na atualidade como historicamente. Ao longo do século XX a bolsa americana tem apresentado taxas de retorno médias na ordem dos 10% ao ano—embora em anos específicos a taxas possam ser muito variáveis, um exemplo paradigmático é o ano de 2008 em que se verificaram perdas na ordem dos 50%. Como discutimos acima é importante considerar o valor da inflação quando analisamos taxas de retorno financeiro. Ao longo das últimas décadas, nos Estados Unidos, a taxa de inflação média situou-se nos 3%, portanto chegamos a uma taxa de retorno depois da inflação de 7%.

 

No que toca a obrigações, é mais difícil estabelecer uma taxa de retorno média, pois esta está muito dependente da situação financeira da entidade que emite a obrigação. Geralmente quanto melhor a situação financeira da entidade emissora menor a taxa de retorno, pois existe uma perceção de risco menor e, portanto, mais procura. Tomando novamente por exemplo as obrigações do Tesouro dos Estados Unidos, a taxa de retorno variou entre 2–15% desde 1900 até aos dias de hoje, com uma taxa média de retorno de 5%. Esta taxa é cerca de metade do retorno atingido pelos ganhos em bolsa, sendo que, quando considerado o valor da inflação, o retorno esperado rondará os 2% reais.

 

Estas diferentes taxas de retorno têm implicações muito importantes na construção de uma poupança a longo prazo. Por um lado, uma elevada taxa de retorno é importantíssima numa fase inicial em termos de capitalização de juros—um conceito que não é muito fácil de compreender devido à natureza exponencial—em que os juros obtidos começam a gerar juros, criando um efeito bola de neve que é fundamental para atingir uma poupança de valor elevado. Por outro lado, num contexto de reforma antecipada, a taxa de retorno é também importante para sustentar a poupança ao longo do tempo, caso contrário seria necessário gastar o capital todos os anos até ao ponto em que dinheiro se esgotaria.

 

A regra dos 4% permite calcular a quantia de que necessita

Posto isto, voltemos então à questão inicial: quanto dinheiro necessito para puder deixar de trabalhar sem me preocupar com o pagamento das despesas? Felizmente, esta questão tem vindo a ser estudada sobretudo nos países mais ricos em que existem percentagens significativas da população que atingem poupanças suficientes para puderem planear a sua independência financeira.

 

Como estabelecemos acima, a taxa de retorno terá um papel fundamental na definição da quantia necessária para a sustentabilidade a longo prazo. Admitindo a opção por uma estratégia de maximização de retorno baseada em investimento em ações, vários estudos indicam que a retirada de 4% dos fundos investidos todos os anos permite uma manutenção da poupança de forma sustentável por tempo indefinido.

 

Claro que a ocorrência de crises cíclicas no mercado de valores terá um impacto significativo na “segurança” desta reforma antecipada e na paz de espírito do investidor. Idealmente, investidor deixaria de trabalhar num período pós-crise com vários anos de crescimento pela frente em que a sua poupança cresceria “automaticamente” ou, por outras palavras, o dinheiro trabalharia por si. Contudo, na pior das hipóteses o investidor poderia deixar de trabalhar imediatamente antes de uma crise financeira e veria as suas poupanças reduzidas em 50% ou mais no primeiro ano de reforma antecipada.

 

Por isso, para fazer face a estas questões colocadas pela natureza cíclica dos mercados financeiros, vários estudos têm sido realizados com o objetivo de perceber nos melhores e piores cenários qual a taxa de retirada verdadeiramente segura. Um dos estudos mais relevantes é o “Trinity Study” que avaliou o desempenho de um portfolio de investimento com 50% de investimento em ações e 50% em obrigações do tesouro dos Estados Unidos. O estudo baseou-se no período dos anos 20 aos anos 70, estabelecendo para cada ano a “taxa máxima de retirada de segura” de acordo com o contexto económico e financeiro da época. A figura abaixo apresenta as taxas de retirada obtidas, devidamente ajustadas para efeito da inflação. É interessante verificar que ao longo do deste período a taxa de 4% constitui de facto o pior cenário, estando a taxa de levantamento “seguro” ligeiramente abaixo de 4% apenas nos anos 1965 e 1966.

 

trinityFonte: Retirement researcher, disponível em https://retirementresearcher.com/trinity-study-updates/

 

 

É certo que estes cálculos referem-se a rendimentos passados e que não preveem necessariamente o comportamento futuro. Todavia, são dados históricos de várias décadas que incluem crises financeiras e até guerras mundiais e, portanto, existe um teste de stress bastante significativo. Para além disso, estas estimativas assumem que a pessoa depois de deixar de trabalhar não terá qualquer fonte de rendimento adicional, o que poderá não ser o caso em muitas circunstâncias—e a partir de certa idade haverá lugar a pagamentos da segurança social.

 

É importante considerar ainda que esta regra não pressupõe qualquer tipo de ajuste às circunstâncias económicas do momento por parte do investidor. Por exemplo, num contexto de recessão ou crise económica mundial é provável que o investidor sinta alguma necessidade de ajustar o seu custo de vida, para aumentar a sua margem de segurança e paz de espírito.

 

Muito bem, estabelecida a regra dos 4%, como é que isso me ajuda a saber quanto dinheiro preciso na realidade para deixar de trabalhar? A resposta a esta questão é bastante simples. Os 4% corresponderão ao custo de vida anual e a poupança inicial representa 100%. Ora aplicando aplicado a proporção 100/4 = 25, ou seja, deveremos multiplicar o custo de vida anual por 25, para obter a quantia inicial necessária para poder deixar de trabalhar.

 

É possível atingir uma poupança deste valor?

Vamos a exemplos práticos dos conceitos discutidos acima:

Salário médio em Portugal situa-se em cerca de 900 euros, por isso tomaremos o exemplo de uma família com rendimentos e custo de vida compatíveis com este salário. Assumindo que existem 2 trabalhadores com um salário de cerca de 900 euros, teremos um rendimento anual de (900 x 2 trabalhadores x 14 meses) 25,200 Euros.

 

Estando nós a analisar um contexto de reforma antecipada, assumiremos uma taxa de poupança mensal minimamente ambiciosa, pelo menos 10% do rendimento de cada trabalhador (180 x 14 = 2520), ou seja o custo de vida anual desta família situar-se-á nos 22,680 Euros. Assim, tendo o valor das despesas anuais e assumindo os pressupostos da regra dos 4%, bastará multiplicar por 25, concluindo então que esta família necessita de 567,000 Euros para puder deixar de trabalhar.

 

Provavelmente este valor será até mais baixo do que a maioria das pessoas pensaria, mas ainda assim é um valor muito significativo e que levará muita gente a dizer “nunca na vida conseguirei juntar esse dinheiro”. A boa notícia é que como exploramos acima, se tirarmos partido do efeito da capitalização de juros boa parte da quantia será gerada “automaticamente”. Por isso, é extremamente começar a planear o futuro financeiro a muito longo prazo, pois o efeito exponencial da capitalização é muito relevante em prazos longos, podendo significar uma diferença de centenas de milhares de euros na poupança de uma família média.

 

Voltemos ao exemplo da família acima: considerando que têm 30 anos e pretendem deixar de trabalhar aos 50 anos. De momento não têm dívidas, mas também não têm poupanças. Se durante os próximos 20 anos mantiverem a taxa de poupança atual na ordem dos 2520 Euros anuais, os diferentes tipos de aplicações financeiras originarão as poupanças poupanças aos 50 anos:

  • Depósitos: assumindo uma taxa de retorno real de 1% (já bastante otimista) acumulará um total de 55,487 Euros.
  • Obrigações: assumindo uma taxa de retorno real de 2% acumulará um total de 61,229 Euros.
  • Ações: assumindo uma taxa de retorno real de 7% (perspetiva otimista) acumulará um total de 103,308 Euros. Contudo, vários especialistas advogam que nas próximas décadas o mercado de capitais terá retornos inferiores, na ordem dos 7%, que se reduzem a 5% depois da inflação prevista, neste cenário acumulará 83,326 Euros.

Ora, estes valores são claramente insuficientes em relação à quantia necessária que tínhamos referido atrás, mas fornecem uma visão muito importante do poder da capitalização de juros. Ao longo destes 20 anos a diferença entre um depósito e a aplicação em ações poderá significar praticamente o dobro da poupança quando se aposta em produtos com taxa de retorno superior.

 

O caso acima ilustra bem a necessidade de ter uma taxa de poupança elevada se há pretensões de atingir um nível de independência financeira num prazo razoável. Neste caso, seria necessário aumentar a taxa de poupança ou o rendimento, o que nem sempre é prático ou verdadeiramente exequível dependendo do contexto pessoal de cada um. No entanto, com o objetivo de demonstrar aquilo que é possível atingir quando se fazem as escolhas certas em termos de investimento e poupanças, consideremos algumas possíveis alterações ao contexto da família apresentada no exemplo.

 

Assumimos que existe, de facto, um objetivo de perseguir a liberdade financeira o mais rápido possível e por isso são feitos vários ajustes ao estilo de vida, resultando num aumento para 25% da taxa de poupança. Para além disso, um dos trabalhadores decide procurar um part-time que paga 450 Euros mensais até encontrar um emprego melhor remunerado que lhe permita atingir os objetivos mais rapidamente. Neste caso as despesas anuais passarão a 18,900 Euros, ficando disponíveis para a poupança 12,600 Euros anuais. Importante ressalvar que como as despesas foram ajustadas, também a quantia necessária será menor, descendo para 472,500 Euros. Ora, voltando a averiguar as possibilidades das várias aplicações financeiras obtemos o seguinte:

  • Depósitos: total de 277,439 Euros.
  • Obrigações: total de 306,146 Euros.
  • Ações: total de 516,543 Euros considerando retorno de 7% e 416,631 Euros considerando um retorno de 5%.

Como foi sendo referido ao longo deste artigo, é sempre importante considerar o impacto da inflação na construção de um plano financeiro a longo prazo. Se está agora a começar e pretende estimar o valor que necessitará para se tornar financeiramente independente daqui a 10, 20 ou 30 anos deve ajustar o custo de vida anual atual para o efeito da inflamação. Para isso bastará utilizar as calculadoras mencionadas nos recursos.

 

O valor de inflação média de 3% ao ano é geralmente o mais utilizado. No entanto, os bancos centrais dos principais países desenvolvidos estabeleceram a meta de inflação de 2% nas próximas décadas. De qualquer modo, numa perspetiva mais conservadora, utilizar o 3 ou até 4% poderá ser uma boa estratégia, pois se se verificar que na verdade fica nos 2% terá a agradável surpresa de se “reformar” mais cedo!

 

Em conclusão, utilizando uma aplicação financeira com taxa de retorno adequada e tendo uma taxa de poupança ambiciosa é possível construir poupanças de valor elevado, mesmo em períodos relativamente curtos (no caso acima, 20 anos), que poderão ser suficientes para suportar uma reforma verdadeiramente antecipada.

 

Em artigos futuros abordaremos dois pontos essenciais à implementação de uma estratégia de poupança deste género: como atingir taxas de poupança tão elevadas? Como investir as poupanças se não percebo (nem tenho interesse em perceber) o funcionamento da bolsa de valores? 

 

Leituras e recursos adicionais:

Este artigo explora sobretudo o conceito da regra dos 4% e a consequente regra dos 25.Quem perceba inglês e esteja interessado em ler uma análise ainda mais detalhada destes conceitos poderá consultar:- The 4% Rule: The Easy Answer to “How Much Do I Need for Retirement? – Artigo que apresenta uma abordagem radical e bem-humorada desta questão, escrito por um dos gurus do movimento da “reforma antecipada”, Mr. Money Mustache.

Trinity Study Updates – Uma análise técnica dos vários cenários em que a regra dos 4% é testada, incluindo as diferentes taxas de sucesso esperadas.

Para além disso, na parte final do artigo apresenta-se o conceito de “Time Value of Money” algo como “Valor temporal do dinheiro”, em que se analisam os ganhos de uma poupança num determinado prazo, assumindo os efeitos da capitalização de juros. Na internet existem várias calculadoras relativas a conceito, sendo bastante úteis no estabelecimento de objetivos pessoais de poupança e que encorajamos toda a gente a explorar. Um exemplo de calculadora fácil de usar está disponível aqui.

 

Livro sobre o tema da independência financeira:

 

  

The Simple Path to Wealth: Your road map to financial independence and a rich, free life

by JL Collins

 

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